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Mulher & Sexualidade: ontem e hoje

Mulher & Sexualidade: ontem e hoje

Simone de Beauvoir, feminista e romancista francesa, defende que a “mulher” é um útero, um ovário, sendo estas peculiaridades que a confinam na sua própria subjectividade.

Ao longo dos tempos o feminismo e, por conseguinte, a forma de pensar a “mulher”, têm vindo a sofrer transformações(1), tendo este movimento sido responsável por alterações ocorridas ao nível das práticas quotidianas que conduziram a mudanças na sociedade moderna, do ponto de vista da sexualidade e dos géneros, como a interpretação do corpo, do sexo, da reprodução, da identidade individual e das emoções(2).     

Durante séculos, acreditou-se que as mulheres eram sexualmente passivas, não tendo direito ao desejo sexual e ao orgasmo e, consequentemente, as investigações científicas incidiam na satisfação do homem durante a relação sexual(3), na medida em que a sexualidade masculina era percepcionada como sendo mais potente, eficaz e profunda(4), não existindo um encorajamento no sentido das mulheres expressarem as suas necessidades sexuais aos seus parceiros(5). O significado “mulher” era construído de forma similar para todas as mulheres, como se as suas experiências e vivências fossem homogéneas(6).

A revolução industrial, o movimento feminista e a invenção da pílula contraceptiva promoveram a entrada da mulher no mercado de trabalho, permitiram-na controlar a fertilidade e que tivesse as mesmas consequências e os mesmos direitos e deveres que os homens, no que se refere às relações sexuais; suportaram e promoveram a imagem da mulher como sendo um independente ser sexuado, capaz de controlar eficazmente a fertilidade e a não se subordinar ao desejo sexual masculino(7). Por conseguinte, experienciar um orgasmo passou a ser compreendido como sendo um direito(8) e um objetivo para as mulheres(9).

Com o movimento feminista, a dicotomia entre biologia (macho vs. fêmea) e cultura (homem vs. mulher) é questionada. Consequentemente, surgia a emergência de se desconstruir socialmente o significado de “mulher”(10), na medida em que as vivências, experiências e emoções femininas não poderiam ser generalizadas, ou seja, dever-se-ia ter em conta as idiossincrasias das mulheres, reconhecendo que as vivências, experiências, emoções, comportamentos, atitudes são diferentes de mulher para mulher e na mesma mulher (consoante a situação e os factores biopsicossociais).

Atualmente, e apesar da herança judaico-cristã encontrar-se enraizada no ADN, a mulher procura e tem vindo a ganhar terreno em áreas impensáveis há 15 anos, como o do cargo de presidente de um país, e tem consciência do direito em reclamar a vivência de uma sexualidade saudável e satisfeita.

Dra. Sofia Melo Refoios

 

Referências

2 – Almeida, M. V. (1997). No princípio era o corpo, em recuperar o espanto: O olhar em antropologia. Porto: Edições Afrontamento.

10 – Beauvoir, S. (1993). The second sex. London: Everyman’s Library (Obra original publicada em 1953).

4 – Chalker, R. (2001). A verdade sobre o clitóris: O mundo secreto ao alcance da sua mão (C. Serra, Trad.). Rio de Janeiro: Imago Editora (Obra original publicada em 2000).

1 – Crawford, M., & Unger, R. (2000). Women and gender: A feminist psychology (3rd Edition). London: McGraw Hill.

7, 8 – Davidson, J. K., & Darling, C. A. (1993). Masturbatory guilt and sexual

responsiveness among post-college-age women: Sexual satisfaction revisited. Journal of Sex and Marital Therapy, 19(4), 289-300.

3, 8, 9 – Davidson, J. K., & Moore, N. B. (1994). Guilt and lack of orgasm during

sexual intercourse: Myth versus reality among college women. Journal of Sex

Education and Therapy, 20(3), 153-174.

7 – Heiman, J. R., & LoPiccolo, J. (2001). Becoming orgasmic: A sexual and personal growth programme for women. London: Piatkus.

5 – Hurlbert, D. F. (1991). The role of assertiveness in female sexuality: A comparative study between sexually assertive and sexually non-assertive women. Journal of Sex & Marital Therapy, 17(3), 183-190.

1, 6 – Rosa, G. (2004). Do corpo ao género. MNEME-Revista Virtual de Humanidades, 11 (5), 1-9.

Simone de Beauvoir, feminista e romancista francesa, defende que a “mulher” é um útero, um ovário, sendo estas peculiaridades que a confinam na sua própria subjectividade.